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10 de Dezembro de 2018

A "copa das copas" termina em fracasso, vexame e uma boa lição

Artigo publicado originalmente em www.moralpolitica.com.br

Jhonnatha Fernandes
Publicado por Jhonnatha Fernandes
há 4 anos

A copa das copas termina em fracasso vexame e uma boa lio

Eu já li algumas crônicas sobre o maracanaço, ficava me perguntando como seria a dor de perder uma Copa do Mundo em seu próprio país, para minha decepção agora sei como é, e pior, sem ver minha seleção jogar. O chocolate que a seleção alemã impôs à seleção brasileira deixa uma lição, e por incrível que pareça, pouco tem haver com futebol. A derrota de 7 x 1 que levamos no Mineirão é apenas um reflexo daquilo que estamos plantando no Brasil.

O “jeitinho brasileiro”

O “jeitinho brasileiro” foi enaltecido, a malemolência, a malandragem e a busca da vida fácil onde se ganha muito dinheiro trabalhando pouco, o sonho de todo brasileiro. Sempre achei estranho que um dos maiores orgulhos do brasileiro ser a capacidade de se dar bem. Nós, brasileiros, ajudamos a enaltecer a imagem do malandro carioca, do baiano preguiçoso e tantas outras imagens que enfraquecem e escondem a grandeza do nosso povo.

A ilusão de que é possível alcançar objetivos sem planejamento

A Copa do Mundo foi anunciada que seria no Brasil em 2007, ou seja 7 anos antes do mundial. De lá para ca a euforia tomou conta do país, os políticos prometeram o céu aos brasileiros. E cada vez que aparecia um aumento de orçamento, um novo atraso, cancelamentos de obras e etc, sempre vinha alguém e dizia “no fim dará tudo certo, basta acreditar”. Sempre que alguém criticava as obras da Copa ou a seleção, logo era chamado de pessimista, que não era patriota e que deveria então sair do país.

Nosso vexame começou muito antes. Gastamos R$ 35 Bilhões e só conseguimos terminar os estádios, e mesmo assim a apenas 15 dias do mundial. O trem bala não chegou, os metrôs não chegaram, a mobilidade urbana não veio, continuamos sem hospitais e aeroportos. Ou seja, o tal legado da copa foi para as cucuias.

Da mesma forma a nossa seleção se preparou para a copa, ou seja, de qualquer jeito. O clima de oba-oba tomou conta, afinal, a copa era aqui e somos o país do futebol. A cada jogo da seleção, os jogadores ganhavam folga e iam para casa, o que parecia nos noticiários era muita alegria e pouco treinamento.

Mas isso não se resume apenas às obras do mundial ou à preparação da seleção, tem muito a ver com aquilo que estamos fazendo com nosso país. Estupidamente tentamos transformar nossas escolas em parques de diversões, de norte a sul do país vemos “educadores” dizendo que educação não combina com cobrança, seriedade. Que a escola deve ser um lugar de diversão e não de sofrimento. Estamos facilitando que alunos sem condições avancem sem esforços e a consequência é que se formam sem nada saber.

O que nossa seleção passou hoje no Mineirão é o reflexo do que estamos fazendo com as gerações futuras, fizemos uma seleção que sabíamos que não tinha condições acreditar que poderia e da mesma forma estamos fazendo nossas crianças e jovens acreditarem que poderão ser bem sucedidos na vida sem esforços e conhecimento. Ficamos estatelados ao ver o Brasil despencando nos índices de educação, ao ver nossas faculdades despencando nos rankings mundiais, nem mesmo perto da América do sul nossa situação é confortável. Mas assim como fizemos com a seleção, preferimos não ver, preferimos acreditar que mesmo fazendo tudo errado o resultado será bom. A diferença é que os jogadores desta seleção carregará este péssimo resultado, mas de certa forma possuem suas vidas ganhas, ao contrário de nossa juventude que graças a um conjunto de mentiras e ilusões está sendo jogada em um abismo que pode não ter volta. Afinal, como já diziam os antigos, não pode um pé de jamelão produzir morangos.

A lição alemã

Da mesma forma que podemos associar o fracasso da seleção brasileira ao modelo que vigora em nosso país e ao espírito carregamos, podemos associar o sucesso alemão com o modelo que eles seguem e o espírito que carregam.

O alemão é um povo chato, diz o brasileiro, sem graça, sem alegria. Mas o que o brasileiro não vê é que por trás da seriedade alemão existe um comprometimento com tudo que eles se pretendem a fazer e a alegria e a festa só vem depois de alcançarem os objetivos e nunca antes.

A Alemanha possui uma história dura, e comparada ao Brasil deveria estar muito pior que nós, o país foi destruído há 69 anos atrás com o fim da II Guerra Mundial e até 1989 viveu uma terrível tensão, tendo o país dividido por um muro. A seriedade alemã é compreensível ao se olhar sua história. Mesmo assim tiveram força e em momento algum procuraram “amolecer o sistema” ou relaxar as cobranças, muito pelo contrário, a seriedade na formação das novas gerações construíram um país forte e a maior potência européia da atualidade e isso se reflete nesta seleção alemã. Vale lembrar que a Federação Alemã possui uma belíssima parceria com as escolas do país e metade dos jogadores desta seleção foram descobertos nas escolas daquele país sério e sem graça.

Durante o mundial, mesmo muito descontraídos, os alemães não perderam o foco em momento algum, se isolaram no sul da Bahia, e não entravam no clima de oba-oba após cada vitória. Treinavam sério dia após dia sob o sol do meio-dia da Bahia e estudavam duro cada adversário e entre um compromisso e outro apareciam uma foto ou um comentário em uma rede social, mas sem muita empolgação.

Se fica uma lição disso tudo é que precisamos aprender levar as coisas a sério, há um velho ditado que diz: “quem vai buscar, leva saco”, é preciso estar preparado para alcançar aquilo que se almeja. Da mesma forma que não vencemos esta copa sem treinar duro e seriedade, também não teremos futuro se não mostrarmos aos brasileiros de amanhã que sim, a vida é dura e o peixe é de quem o pesca. Enquanto formarmos pessoas acostumadas a receber elogios e nunca serem cobradas, enquanto formarmos gerações que não sabem o peso das conseqüências das nossas escolhas e que nunca podem ser contestadas, iremos colecionar fracassos e os fracassos do futebol será os menores e menos importantes.

É duro ver o Brasil nesta situação, e não falo de futebol. Este é nosso menor problema, sinceramente, somos uma fábrica de craques e não será difícil voltar a vencer e levantar a cabeça, desde que façamos o dever de casa, é claro.

Minha maior dor como brasileiro é ver que após esta derrota vergonhosa, também não temos um sistema de ensino decente, não temos uma saúde decente, não temos segurança, nossa economia patina e não conseguimos ver um Brasil melhor se continuarmos como estamos.

Temos agora a oportunidade de aprender com esta derrota, melhorar de vez o Brasil e deixar a diversão e a festa somente para depois das obrigações e não antes delas. Afinal, a derrota ensina mais que a vitória e esta é uma bela oportunidade de aprender, mas aprendercom quem faz direito, olhar para os melhores e fazer como eles e não nos espelhar em fracassados.

A Copa das Copas terminou em fracasso para nós, dentro e fora dos estádios. Ficamos sem nada, nem mesmo a alegria nos sobrou. Fica apenas as lições, que espero que sejamos capazes de aprender.

Artigo publicado originalmente em: http://www.moralpolitica.com.br/2014/07/a-copa-das-copas-termina-em-fracasso.html

104 Comentários

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O pior de tudo isso é que sabemos que as grandes redes de tv que vivem as custas deste tipo de cultura, enaltecem de todas as formas em seus seriados e novelas personagens que fomentam a cultura da malandragem, funk, jeitinho de se dar bem de qualquer maneira, a sexualidade desregrada e todo o tipo de desordem ética.
Mas um dia isso mudará. continuar lendo

Está mudando e para pior...

Alguns colegas do Jusbrasil ficam atacando a má distribuição da renda e a concentração de capital para justificar nossas mazelas. Um ponto positivo deste artigo é o contraponto de que as verdadeiras causas possam ser má distribuição de cultura e concentração de conhecimento.

Infelizmente não vejo a implantação de políticas públicas realmente vocacionadas para a cultura e educação formal da população. continuar lendo

Fracassados são os oportunistas que faturam em todo fato negativo para induzir suas convicções.
A organização da copa no Brasil está sendo elogiada no mundo inteiro.
Uma derrota atípica jamais poderá ofuscar a grandeza do futebol brasileiro, que continua sendo o pentacampeão, ficando entre os quatro primeiros nesse magnífico evento esportivo. continuar lendo

Apenas para complementar.
Será que as coisas acontecem por acaso?
Tenho certeza absoluta, que não.
Sem ira e com plena consciência, vocês acham que uma seleção composta por atletas que não tem um mínimo de respeito pelos seus adversários mereciam o que?
Jogadores que quando fazem uma jogada de efeito ficam menosprezando o adversário, considerando-o inimigo, ridicularizando-os e tudo isto apoiado pela nossa torcida.
Lembram da copa das confederações?
Lembram dos jargões cantado naquela época? com menosprezo pelos outros?
Nem notamos, mais nosso complexo de inferioridade nos acende a mania de grandeza quando chegam esses momentos de pura falta de educação.

Viram como a Alemanha, mesmo ganhando com 7 gols de diferença, sempre estivesse serena em campo?,
Viram como eles tiveram respeito pelo adversário, sem ironia?,
e nós, que tipo de consideração temos para com os outros?, nenhuma.

Merecemos mesmo é levar mais 05 gols da Holanda que é para aprendermos a ter respeitos pelos outros, isso sim. continuar lendo

Agora é importante aplicar essa lição fora de campo, né? Adorei o artigo, é um dos melhores que li até o momento! continuar lendo

concordo co vc Luis ! continuar lendo

trabalho em uma rede de supermercados,só que eles não pagam hora extras nem dao cesta basica,e cobram sem minha permissão o que comprei durante o mês tipo só pego o troco.o que faço continuar lendo

Oi Deizy, tudo bem? As horas extras são devidas, eles tem que pagar a você o adicional trabalhado.
Em relação às compras realizadas, verifique se a empresa tem algum tipo de bônus/benefício para não ter descontado de seu salário (e lembre-se, eles não podem descontar arbitrariamente do seu salário sem antes de consultar). Até mais, um abraço! continuar lendo

Excelente artigo! Ótima explanação sobre o quadro atual que estamos vivendo. continuar lendo

Realmente precisamos rever nossos valores, nossas prioridades e mudar a imagem do Brasil no Exterior. Eu já tive a oportunidade de andar muito lá fora, mais precisamente na Indonésia, com rota por Paris e Cingapura. E, infelizmente, quando sabiam que eu sou brasileiro as primeiras palavras que falavam para identificar o Brasil: futebol (Zico e Pelé) e Carnaval (as brasileiras desfilando expostas como mercadoria). Respondia a todos, com educação claro, que Brasil não se resume em futebol e carnaval, que temos cultura, que há muita gente batalhadora e que apenas uma minoria teima em querer viver a vida de "Zé Carioca". Mas, sabemos que, infelizmente, não é bem assim. Precisamos mudar para melhor, para que nossos filhos e netos possam se orgulhar da nossa geração. Precisamos ver nos alemães um exemplo de dedicação e compromisso a ser imitado. Vejam outro exemplo de povo aguerrido: os japoneses. Após o último Tsunami qual lembrança se tem da catástrofeº O País se recuperou. O povo sofre a saudade dos que se foram, mas, reconstruíram o que o mar carregou.
Precisamos mudar, deixa de ser apenas o país do futebol e da sexualidade vulgar e banal. Precisamos, inicialmente, rever nossos valores, moldar a nossa mente para o que é proveitoso e cultivar o que edifica.
Parabéns pela publicação! continuar lendo

Seu comentário também foi muito bom. Valeu. continuar lendo

A Copa contribuiu para mudarmos positivamente a ossa imagem no exterior. Aliás, ela serviu para que bilhões de pessoas descobrissem que o Brasil existe. continuar lendo

O que você achou da organização brasileira? Dos estádios dos gramdos, do conforto e da civilidade do nosso povo para com os visitantes? NADA? continuar lendo

Infelizmente, tem gente que esquece de tudo quando o assunto é futebol.
Ninguém está feliz que o Brasil perdeu, por puro e simplesmente prazer.
Mas sim, pela superioridade que se dá a este evento que parece estar sobre tudo.
Absurdo quando ouço que: "Agora que o Brasil perdeu vai ficar ruim para o atual governo".
O que isso significa?
Nos dê a taça e continue fazendo o que quiseres com o restante? continuar lendo

Sylvio, quem já teve contato com a Europa sabe que em termo de organização o Brasil, de 0 a 10 tira, no máximo, nota 7. Brasileiro ainda gosta muito de improviso e, improviso só é bem vindo em teatro.
Com relação aos estádios, gramados e do conforto nos mesmos, não posso opinar. Não visitei nenhum deles.
Quanto à civilidade, que é o respeito pelas normas de convívio entre os membros duma sociedade organizada. Você acha que estamos bem? Precisamos melhorar muito. Enquanto houver motoristas que desrespeitam a preferência dos pedestres; enquanto houver motoristas que param seus veículos em vagas especiais para idosos e deficientes; enquanto houver indivíduos achando que tem que levar vantagem em tudo como se isto fosse uma virtude, nossa civilidade permanecerá bem abaixo da média.
Desculpe se te decepcionei com minha resposta, mas é o que percebo e certamente que há pessoas que não tem a mesma percepção que eu, e claro que vou respeitar. Afinal, ponto de vista tem que ser diferente mesmo, nem que seja alguns graus de diferença. continuar lendo

Sylvio, civilidade nos estádios, sinceramente não foi o melhor a ser lembrado não. Eu não fui assistir aos jogos em estádios, mas pelos noticiários soube do caso do alemão que perdeu a audição após levar um soco de um brasileiro no estádio enquanto torcia para a Alemanha no jogo contra o Brasil. Isso é exemplo de civilidade para com visitantes? continuar lendo